Canoa Baleeira Santa Joana


Autor: João Basílio da Silva (Calafate)

Data: 1953

Material: Madeira, linho, ferro, cobre

Dimensões: A 1270 x C 110 x L 199 cm

N.º de inventário: MCM1464

Em exposição: Centro Comercial Parque Atlântico, Ponta Delgada

Observação: No final do século XVIII, os portos dos Açores acolhiam dezenas de embarcações baleeiras vindas da América, sendo usual a integração de tripulantes açorianos, comos os exaltados na obra Moby Dick, de Herman Melville. Em S. Miguel, a caça ao cachalote, Physeter macrocephalus, realizava-se durante todo o ano, sendo o Verão a época de maior rentabilidade. Nesse período caçavam-se, em média, por bote, cerca de 10, 12 ou até 17 cachalotes. Quanto mais elevado fosse o número, maior era o prestígio social adquirido pelo oficial da embarcação.

Os botes baleeiros de S. Miguel eram todos construídos na ilha, quase sempre por mestres locais, sendo os nomes das embarcações atribuídos pelos proprietários. Integrando atualmente o espólio do Museu Carlos Machado, a canoa baleeira Santa Joana foi um destes botes e a sua história começa em meados do século XX. Por encomenda da União das Armações Baleeiras de São Miguel Lda., a sua construção inicia-se a 13 de maio de 1952, efetuando-se o registo em janeiro do ano seguinte, na Capitania do Porto de Ponta Delgada. Esta canoa baleeira, com uma lotação máxima de oito pessoas, tem como meios de propulsão duas velas e seis remos, tendo sido utilizada durante largos anos na costa da ilha de S. Miguel na caça ao cachalote, chegando a sua tripulação, no ano de 1962, a capturar 39 desses cetáceos. Em 1970, a canoa baleeira Santa Joana era um dos 16 botes existentes em S. Miguel. Em terra encontravam-se nove vigias: Santo António, Ajuda da Bretanha, Várzea, Feteiras, Água de Pau, Faial da Terra, Algarvia (Marquesa), Fenais da Ajuda e Ribeirinha (Cintrão), para além de uma vigia móvel, que funcionava no Morro das Capelas. Os trabalhadores da atividade baleeira distribuíam-se pelas funções de oficiais, arpoadores, remadores, vigias e tripulação das lanchas. Os baleeiros, além de irem para o mar, ajudavam a esquartejar os cachalotes. Dos instrumentos manuais mais utilizados nesta atividade, destacamos a lança e o arpão, para ferir o cachalote, e o espeiro, para o esquartejar. A partir da carne, sangue e ossos, produziam-se três tipos de farinha, utilizadas nas rações para animais, algumas das quais eram exportadas. A gordura, derretida e transformada em óleo, era utilizada localmente como combustível para iluminação e exportada para exploração industrial. Muito valorizados eram os dentes de cachalote, de marfim, exportados ou utilizados localmente na produção de valiosas peças de artesanato e de scrimshaw. O espermacete, óleo que se encontra alojado no interior da cabeça destes cetáceos, era utilizado no fabrico de diversos produtos farmacêuticos e cosméticos e na produção de velas, que tinham a particularidade de não produzir fumo. Outro produto muito importante, embora mais raro, era o âmbar, proveniente dos intestinos de alguns cachalotes, que, pelas suas características, era utilizado em perfumaria.

Em 1984, foram capturados os dois últimos cachalotes na Região Autónoma dos Açores, sendo os testemunhos dos baleeiros e da sua atividade um marco na história do Arquipélago. [Sílvia Fonseca e Sousa].